“ESTÁGIO PARA APOSENTAÇÃO” – POR MOACYR SARAIVA


Eita pandemia cheia de novidades, a pior é bom nem falar, o fato por si só já mostra o quão está sendo danosa para a humanidade. Mas há outras que se tornam até engraçadas, ainda mais quando o povo é inventivo, e encara dificuldadonas com humor, aí sai criatividade que até o cão duvida, e esse é o povo brasileiro.

Ninguém nega ter a vida de todos sofrido alterações, obedecendo aos órgãos de saúde, a maioria dos povos ficou em casa por um bom período, no decorrer desse tempo, alguns, pela natureza da atividade econômica, foram se desgrudando do lar aos poucos no sentido de ganhar o pão, no entanto, muitos continuam com âncoras fortes na própria moradia por não poderem exercer seu labor.

Nesse último grupo, seja pela natureza do trabalho ou por medo de morrer, há um sujeito que não pôs os pés na rua. O cabra era tido como corajoso e espirituoso, mas amofinou e ficou cambaleante com a pandemia, só para exemplificar o seu excesso de zelo e medo para não ser fisgado pelo vírus, ao pedir coco verde no hortifrúti, já esperava o produto com um panela grande de água ao fogo, ao receber os cocos, os jogava na água fervente e só depois de uma boa fervura, os abria a fim de se deliciar com o gostoso líquido.

Com o passar dos dias, seu lado espirituoso foi se reacendendo, embora o medo permanecesse. Nas redes sociais, já começava a reassumir sua identidade de outrora, ofuscada pela pandemia, pois até o celular tinha receio de manuseá-lo, não se sabe o porquê. Dizem as línguas, não sei se más ou não, que ao ir usar o bendito aparelho, que fica permanentemente dentro de um invólucro de plástico incolor, dava muitos banhos nesse invólucro, em seguida, o sujeito higienizava as mãos com todos os recursos disponíveis, água abundante e sabão, enxugava as mãos com secador de cabelo e por fim usava o álcool em gel. O meio de se comunicar era tão somente por mensagens escritas e com o bicho sempre revestido com o plástico.

Após nove meses, o sujeito apareceu com muitos lampejos os quais expressavam sua cara de antes da pandemia, ideias inventivas, originais e carregadas de humor. Isso foi ao conhecimento dos colegas através de um bate papo, via on-line, com dois companheiros dele de trabalho. Já mudou um pouco, agora, abriu o vídeo. Nessa conversa virtual, cada um manifestou aquilo que aprendera, um disse ter ficado um mestre na cozinha, outro conseguira fazer muitos cursos on-line e tanto um como o outro focou o lado positivo do freio de mão puxado abruptamente.

Ao ser perguntado sobre a maneira como ocupou o tempo nesses nove meses em casa, ele saiu com essa:

– Ainda estou fazendo um estágio.

– Que bom, – disse um dos interlocutores.

O outro participante, perguntou?

– Estagiando em quê?

A resposta foi sucinta:

– Estágio para aposentação. Não ir trabalhar e receber todo mês o salário.