MARIONETES DA MASSA


 

MARIONETES DA MASSA

 A primeira parte do Mito Da Caverna de Platão fala sobre prisioneiros desde o nascimento que vivem atados a correntes  numa caverna e passam o tempo todo olhando para uma determinada parede, não podendo se virar para ver o que se passa atrás deles mesmos.

Nessa parede iluminada pela luz de uma fogueira que eles também não vêem, e por isso nada compreendem, são projetadas sombras e espectros de formas humanas, além de animais e outras figuras, incompreensíveis como misteriosos fantasmas, que os prisioneiros tentam decifrar.

Por sua vez, os manipuladores das sombras na caverna da obra platônica, são, na realidade, fabricantes de ilusão; ou seja, os sofistas e os políticos atenienses que se transportados para os dias de hoje seriam representados por demagogos e carismáticos políticos que se apresentam como salvadores da pátria; mas que efetivamente aproximam o povo da total ignorância inerente a uma cega massa que nem se reconhece nos oprimidos, mas que não só reverencia, bem como, se identifica com os opressores e com as mazelas da corrupção por eles promovidas e para os quais essa massa só tem serventia até a chegada ao poder, sendo, depois inteiramente descartada.

Aqueles que fazem parte desta estúpida multidão, no entanto, nem se incomodam em ser usados. Movidos por um ódio difuso, manifestam-se nas ruas em um insano clamor que atende muito mais aos propósitos de seus idolatrados políticos, quer da direita, quer da esquerda, do que os verdadeiros anseios coletivos em prol do país.

Retomando a alegoria de Platão, em sua segunda parte, vemos que um dos prisioneiros vai escapar para o mundo exterior ao sair da caverna e enxergar a realidade à luz da razão; compreendendo, enfim, o motivo das sombras e dos fantasmas que se afiguram na parede à frente dos cativos, além de ter a compreensão da própria vida, do mundo e, ainda, de outros seres semelhantes a ele próprio.

Contextualizada aos dias de hoje, a fuga de um único prisioneiro simboliza a salutar  negação do individualismo oposta à atitude  mesmista onde todos enxergam, ou parecem enxergar,  exatamente as mesmas coisas, pois, cada individuo, vivendo à sombra da realidade, embora escravizado, sente-se senhor ou poderoso. Esse comportamento, é típico, em suma, de uma reacionária massa, ativa “colaboradora” da opressão do Estado plutocrático que com sua habitual truculência ataca  os oprimidos e os deserdados.

A massa, portanto, não é um segmento social de baixo poder aquisitivo ou de pouca instrução educacional, mas, sim, uma categoria que representa a mediocridade de um ser humano absolutamente despersonalizado em uma realidade sócio-politico-cultural que se mostra incapaz de lutar por mudanças radicais tanto na configuração política de sua sociedade quanto em seu próprio modo de vida egoísta, que pela ânsia do poder quer abarcar tudo aquilo que estiver ao alcance de suas mãos.

Desse modo, essas infelizes marionetes da massa, embora pensem agir por vontade própria, igualmente aos prisioneiros da caverna, necessitam do outro, ou seja; do senhor, não para buscar referências ou valores; mas, alienados pela moral do escravo, aqueles que pertencem a essa turbulenta massa precisam dos políticos, ou de ex-políticos, igualmente demagogos, para guiá-los e até para determinar o que pensam; pois na busca do poder esses ressentidos e falsos líderes se utilizam da política também para tiranizar as massas e formar seu fiel e fanático rebanho.

 

VALTER SILVA é formado em Pedagogia e Letras pela UNEB. Universidade do Estado da Bahia