POR: MOACIR SARAIVA – O CORONAVÍRUS E A SEMINOVA


Ela completara já 58 primaveras, mas só os familiares bem próximos sabiam da quantidade de carnavais vivenciados por essa quase nova, no entanto, no período da quarentena tudo mudou na vida dela.

Trabalhava muito e gostava de curtir a vida, já passara por dois casamentos, mas filhos não vieram, as más línguas falam que essa “infertilidade” foi propositada a fim de, segundo ela, não criar flacidez na barriga e os peitos não despencarem, além de outros efeitos nefastos que uma gravidez causa no corpo da mulher, tese defendida por ela abertamente no seu ambiente de trabalho. Só para ilustrar sua obsessão pela esterilidade, quando uma colega de trabalho ou do seu ciclo de conhecidas engravidava, ela dizia que a prenha ia ficar que nem uma baleia, que a barriga ia crescer, que os peitos iam cair, enfim, deixava a recém-grávida abaixo do chão, algumas até se arrependiam de terem embuchado.

Mesmo tendo mais de meio século, mantinha o penteado como se tivesse 18 anos, jamais revelava, na arrumação de sua juba, a idade de uma mulher mais avançada na idade. Em tempo algum saia de casa sem antes rebocar o rosto, só com forte reboco disfarçava as rugas que já teimavam em aparecer e outras sequelas faciais que a idade impõe. Mesmo já vivendo no desmaiamento do dia, seus mamilos jamais foram sugados por um recém-nascido, ainda assim, ficaram flácidos e para resolver esse incômodo, ela fez plástica para arribar os bichos e o recheou com vontade. A partir daí, usa uns decotes deixando seu colo que nem um artista famoso, onde chega não precisa ser apresentado, todos naturalmente se voltam para ele, tamanha é a atração que o decote causa em todos.

No sentido de se manter durinha, ela só põe o pé fora de casa usando espartilho e calças modeladoras, assim, as pernas, as nádegas e a barriga ficam roliças deixando a moça com sinais de uma menina ainda em plena puberdade.

Todos esses anos vividos sem jamais ser importunada ou desmascarada por disfarçar a idade com esses artifícios. Vive sempre sorridente e crê que engana a todos, pois incorpora nas vestimentas e no discurso ser uma mulher púbere.

Mas a pandemia está mudando o mundo e parece que mudou a forma de as pessoas olharem para os outros e para o mundo, diz-se que o coronavírus fez o ser humano não aceitar mais o disfarce, a mentira. Nessa avalanche de mudanças no mundo, o “puberismo” da nossa quase nova foi junto. A seminova foi a uma padaria, em plena quarentena, e ouviu de alguns fiscais do corona, o seguinte alerta:

– Minha senhora, o carro de caçar velhos está solto e vai pegar a senhora, vá para casa correndo.

Ela nem comprou o pão, voltou para casa atordoada, aturdida, macambúzia e em prantos, pois em dez minutos ouviu insultos que jamais ouvira ao longo do seu mais de meio século de vida.