Tecnologia: Ferramenta ou Fetiche?


Quando enfatizamos que os professores precisam discutir os tipos de tecnologia usados em seu trabalho cotidiano, em vez de apenas esperarem passivamente pelas decisões políticas, não estamos, absolutamente, negando que os problemas inerentes a esse assunto não possam ser resolvidos pela via ou esfera política. A classe docente, no entanto, não deve ser mera expectadora ou consumidora “maravilhada” das tecnologias que surgem e, sobretudo, não pode fechar seus olhos para os episódios tecnológicos que em curto ou em médio prazo poderão afetar sua vida; principalmente, a profissional.

Não se pode negar que os dispositivos eletrônicos atuais são verdadeiros fetiches tecnológicos aos quais são projetados os valores supremos da existência humana; sendo, por isso, idolatrados como instrumentos dignos de adoração e sem os quais seria impossível se viver. De fato, qual habitante de qualquer sociedade de informação que conseguiria imaginar uma vida satisfatória e digna sem celulares ou sem internet?

É imprescindível, porém, a instauração de uma reforma em nossas instituições, capazes de promover a moldagem cultural e informativa, objetivando, enfim, superar tanto o modelo educacional vigente quanto as emissões midiáticas atuais que convergem com a manutenção da ordem medíocre. O atual sistema de ensino tem sido incapaz de promover a criatividade intelectual dos estudantes e dos próprios professores, ao não valorizar a singularidade das pessoas envolvidas no universo educacional. Por outro lado, os conteúdos midiáticos, na verdade, reforçam estereótipos, preconceitos e opiniões dogmáticas perpetuadas ao longo das eras.

Assistimos constantemente a debates sobre a crise da educação perante a submissão da docência aos paradigmas espetaculares que exigem a degradação discursiva do professor para que ele consiga seduzir a consciência de uma massa indistinta, composta por alunos e aparatos tecnológicos conectados com um mundo global que cada dia é mais interessante do que o que é apresentado pelo docente em seu trabalho diário.

Nos dias de hoje, a integração de tais recursos pelo professor como ferramentas didáticas em suas atividades pedagógicas é apontada como uma saída plausível, uma vez que o aluno, infantilizado pelo culto da tecnologia, mostra-se reativo ao ser solicitado a guardar suas distrações eletrônicas durante as aulas.

Por sua vez, o discurso que prega que as redes sociais são capazes de mobilizar pessoas para causas políticas de grande importância social tais como protesto contra opressões, preconceitos, corrupção ou espoliação do espaço público dentre outras justas reivindicações, não pode ignorar o caráter bilateral dessas redes que também tendem a se tornar mecanismos de expressão dos mais reacionários sentimentos gregários de pessoas que, apesar de todo desenvolvimento tecnológico de comunicação, ainda apresentam fortes ranços com valores primitivos como racismo, xenofobia, histerias coletivas, misogenia e preconceitos religiosos dentre outros absurdos presentes em nossos obscuros dias que tanto afetam o comportamento, sobretudo de crianças e adolescentes.

Um outro aspecto a ser considerado a respeito das redes sociais é a permissão a qualquer pessoa para se tornar formadora de opinião, quando, em vez disto, o ideal seria viabilizar a existência de cidadãos formadores de cultura e de conhecimento. Dessa forma, poderíamos ter nas escolas alunos, de fato, cada vez mais bem informados. Essa informação, contudo, não seria simplesmente formativa, pois viria acompanhada de certos critérios éticos que ajudariam os estudantes a se enriquecer interiormente, a ser mais completo, mais sólido e, em suma, mais humano.

É necessário, portanto, que além de todo poder de entretenimento e de interatividade proporcionados, a internet seja compreendida pelos educadores como um instrumento político capaz de retirar o ser humano, especialmente os estudantes, de sua menoridade existencial e intelectual; isto é, de sua dependência aos ditames externos tradicionalmente instituídos.

Os docentes carecem, em última análise, desenvolver uma nova educação estética dentro da civilização tecnocrática dita pós modernidade. Para tanto, será preciso que eles se despojem dos aparelhos eletrônicos durante as aulas, não apenas por respeito à sua condição de docente, mas também para que possam interagir com a criticidade e com a criatividade de seus alunos consoante a uma proposta pedagógica autônoma e à luz de sua própria formação intelectual e cultural.

Filadélfia Bahia, 15 de Janeiro de 2021.

VALTER SILVA é poeta e pedagogo.