A cidade de Congonhas, na região central de Minas Gerais, vivencia um cenário de alerta após a constatação de dois extravasamentos de água em minas de responsabilidade da Vale em um período inferior a 24 horas. O incidente mais recente, identificado na Mina Viga, soma-se ao rompimento de uma barreira de contenção na Mina de Fábrica, ocorrido no dia anterior, levantando sérias preocupações ambientais e exigindo uma resposta coordenada das autoridades locais e estaduais.
Novo Incidente na Mina Viga Agrava Cenário
As autoridades municipais de Congonhas confirmaram o registro de um extravasamento de água na Mina Viga, localizada na estrada Esmeril. A Defesa Civil local já constatou o escoamento desse material para o Rio Maranhão, configurando um impacto de natureza puramente ambiental. Neste segundo episódio, não foram reportados bloqueios de vias ou comunidades atingidas diretamente. Até o momento desta publicação, a mineradora Vale ainda não se manifestou publicamente sobre o ocorrido na Mina Viga.
Extravasamento na Mina de Fábrica: Detalhes e Desdobramentos
O incidente na Mina Viga sucede um episódio similar e de maior escala ocorrido na véspera, na Mina de Fábrica, situada a aproximadamente 22 quilômetros de distância. No dia anterior, houve o rompimento de uma barreira de contenção de água em uma cava da mina. Este evento desencadeou um fluxo de cerca de 263 mil metros cúbicos de água turva, contendo minério e outros materiais resultantes do processo de beneficiamento mineral. O volume considerável de material percorreu o dique Freitas, arrastando sedimentos e rejeitos de mineração.
A trajetória do material despejado pela Mina de Fábrica impactou diretamente o Rio Goiabeiras, que atravessa parte da área urbana de Congonhas, antes de desaguar no Rio Maranhão, já na área central da cidade. Apesar de não ter havido vítimas humanas, os danos ambientais foram prontamente identificados. Além do curso d'água, a passagem desse volume significativo causou danos materiais à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A unidade Pires da CSN, localizada em Ouro Preto, teve áreas como o almoxarifado, acessos internos, oficinas mecânicas e a área de embarque alagadas. Em comunicado, a CSN assegurou que suas estruturas de contenção de sedimentos operam normalmente e que a empresa acompanha a situação. É relevante destacar a interconexão hídrica da região, onde o Rio Goiabeiras é afluente do Rio Maranhão, que, por sua vez, deságua no Rio Paraopeba, conhecido por ter sido gravemente afetado pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho em 2019.
Consequências Ambientais e Ações das Autoridades
Diante da sucessão de incidentes, uma sala de crise foi estabelecida imediatamente. O grupo reúne representantes das defesas civis de Congonhas e Ouro Preto, da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (CEDEC), do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, da Secretaria de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da prefeitura de Congonhas e do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). As equipes trabalham no monitoramento da situação e na avaliação dos impactos gerados pelos vazamentos.
João Lobo, secretário municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, expressou grave preocupação com os efeitos da alta turbidez da água. Ele alertou para a perda significativa de biodiversidade, resultante da redução dos índices de qualidade da água, da baixa de oxigênio e luminosidade. Adicionalmente, o assoreamento dos rios aumenta as chances de enchentes. O material carreado, potencialmente tóxico, compromete as matas ciliares, essenciais para a contenção de barrancos e prevenção de inundações. Nas proximidades da Mina de Fábrica, já foram observados arraste de árvores e rochas, além de alterações no curso do rio, indicando mudanças ambientais cujas consequências se prolongarão por meses.
Como resposta ao ocorrido na Mina de Fábrica, a Secretaria de Meio Ambiente aplicou um auto de infração à Vale, passível de conversão em multa. O município justificou a medida ressaltando que, embora não se tratasse de uma barragem, a estrutura apresentava potencial para causar graves problemas ambientais e sociais, incluindo risco à vida, e que a empresa não garantia monitoramento adequado e contínuo da área.
Posição da Vale e a Relevância do Monitoramento
Sobre o extravasamento na Mina de Fábrica, a Vale confirmou o incidente, reiterando que não houve feridos e que as comunidades do entorno não foram afetadas, com o fluxo de material atingindo áreas de uma empresa vizinha, referindo-se à CSN. Em nota oficial, assinada por Marcelo Feriozzi Bacci, vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores, a companhia informou que os órgãos competentes foram imediatamente notificados sobre o ocorrido.
A mineradora fez questão de sublinhar que este incidente não tem qualquer relação com suas barragens na região, as quais, segundo a empresa, mantêm condições inalteradas de estabilidade e segurança, sob monitoramento contínuo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Este posicionamento busca diferenciar os eventos de rupturas de barragens, mas a ocorrência de dois incidentes em tão curto espaço de tempo reforça a vigilância pública e das autoridades sobre a segurança das operações da Vale em Minas Gerais, especialmente em regiões sensíveis e historicamente impactadas pela atividade mineradora.
Conclusão
Os recentes extravasamentos nas minas Viga e de Fábrica em Congonhas expõem, mais uma vez, a vulnerabilidade ambiental da região e a necessidade premente de rigor na fiscalização das operações mineradoras. Enquanto as autoridades atuam para mitigar os impactos e apurar responsabilidades, a sociedade mineira permanece atenta aos desdobramentos, cobrando transparência, medidas preventivas eficazes e a garantia de que tais eventos não se tornem uma constante na paisagem de Minas Gerais, preservando seus ecossistemas e a segurança de suas comunidades.










Deixe o Seu Comentário